Violência, movimentos anarquistas, mortes e algumas frases de “filosofia de bar”.Apesar de aparentar ser um filme para homens, ele é um filme sobre como nunca deixamos de ser garotinhos.

Um pouco sobre o filme (sem spoilers)
O Clube da Luta, filme dirigido por David Fincher e escrito por Chuck Palahniuk, nos traz uma abordagem muito personificada e simbólica de como a mente do homem funciona e em como ela é autodestrutiva de diversas formas.
Um rapaz com problemas de insônia e extremamente consumista do qual não nos é dito o nome em todo o filme, acha uma solução um tanto bizarra para o seu problema de insônia: Semanalmente, ele frequenta um grupo de apoio de homens com câncer de próstata.O parceiro dele neste grupo teve os testículos removidos por conta do câncer, o que fez com que ele desenvolvesse peitos de mulher.Todas as semanas, o protagonista vai para esse grupo, finge ter câncer, chora no meio dos peitos do seu parceiro de grupo, volta para casa e dorme como um bebê.
Você pode estar pensando que esse cara é louco, mas ele é a personificação de duas verdades sobre nós:
1- Nós vivemos vidas de silenciosos desesperos.
2- Estamos tentando buscar a aceitação e a solução com homens também doentes.

Robert Bly e a identidade masculina
Nove anos antes de O Clube da Luta ser estreado, um livro chamado “João de Ferro, um livro sobre homens”, foi publicado. Seu autor, Robert Bly, nos faz contemplar ao longo dos séculos todos os processos de construção da identidade masculina até chegarmos na idade contemporânea. Para ele, a industrialização criou um muro entre os filhos e os pais, fazendo com que os nossos maiores exemplos de personalidade masculina não tivessem tanto contato com os seus filhos. No passado, os filhos saiam para trabalhar, caçar e observar como seus pais interagiam com as dificuldades e oportunidades da vida. Hoje em dia, os garotos perderam esse privilégio, e quando seus pais chegam em casa, estão em contato com o seu pior lado (estresse do trabalho, cansaço, etc.).
Segundo Robert Bly, o maior problema do homem não é a falta de propósito de vida, é simplesmente não sabermos quem somos ! Por não termos tido exemplos paternos de nossa identidade masculina e não explorarmos características de nossa personalidade (como a tendência a competitividade, nossa atração a práticas de esportes arriscados, etc), não nos desenvolvemos emocionalmente como homens…em outras palavras, somos garotos de 20, 30, 50, 60 anos que ensinamos os nossos filhos a serem garotos pelo resto da vida !
E é aí que o filme começa…
O Clube da Luta e os rituais de passagem
O protagonista em uma de suas viagens a trabalho conhece Tyler Durden, interpretado por Brady Pitt. Tyler Durden é exatamente o oposto de nosso personagem principal (a gente descobre depois que na verdade Tyler Durden é uma pessoa criada pelo próprio rapaz, na sua cabeça.): Desapegado a bens materiais, sem medo de se arriscar na vida e totalmente contra a todo tipo de estilo de vida comercializado pela mídia. Juntos, eles criam um grupo onde os homens vão para brigar, como uma forma de “esporte”. Esse grupo vai ficando com mais e mais integrantes…até o cara dos peitos grandes vai participar.
Ritos de passagem são celebrações que marcam mudanças de status de uma pessoa no seio de sua comunidade. Os ritos de passagem podem ter caráter social, comunitário ou religioso. Ele sempre foi uma cerimônia usado por grupos sociais no passado como uma forma de transição da vida infantil para a adulta. Robert Bly afirma que os ritos de passagem são essenciais para um garoto, e graças a falta de ritos sadios, adolescentes tentam criar os seus próprios, sem muitos sucesso. Eles entram em grupos de vandalismo, grupos de drogados ou alguma outra coisa para se sentirem como parte de um “bando”.

O Clube criado pelo protagonista e Tyler Durden representam essa necessidade de tentarem criar um rito de passagem para uma transição de garotos para homens. Porém, diferentemente dos antigos ritos de passagem onde existia pessoas experientes controlando tudo para que nada saísse do controle, o deles não tinha…e é exatamente isso que acontece.
O poder destrutivo do Clube
Muitos homens usam esse filme como um exemplo de vida a se seguir e Tyler Durden como modelo de pessoa a ser. Mas isso é um filme sobre garotos tentando se tornar homens.
Nós vamos vendo ao longo do filme um clube que era para o autodesenvolvimento de nossas identidades se tornar um grupo onde pessoas morrem, prédios são explodidos e pessoas saem feridas. O diretor quis transmitir uma ideia que muitos de nós não pegamos: A vida não é feita de extremos. O equilíbrio entre se permitir estar inserido no sistema e entre não seguir tudo que ele nos exige é onde reside o segredo.
Conclusão
Filme incrível, com muito conteúdo e muitas coisas a se aprender. Combinação de cores e fotografia excelentes, transmitindo até nas cores (falarei um pouco sobre cores no cinema futuramente) um simbolismo de tudo o que esta acontecendo.
Tentei fazer um resumão de tudo o que eu gostaria de falar sobre o filme com vocês, galera. Se vocês quiserem, mais conteúdo a respeito do Robert Bly e o livro dele, “João de Ferro”, deixa o comentário de vocês aí.

